segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Partido Alto

Deus me fez um cara fraco
desdentado e feio
Pele e osso, simplesmente
Quase sem recheio
Mas se alguém me desafia
E bota a mãe no meio
Eu dou porrada a três por quatro
E nem me despenteio
Porque eu já tô de saco cheio.


Chico Buarque

Afiada língua

Eu sou prazer em todo meu ser. Sinto gotejar salivas em cada canto escondido na derme. E eu não sei negar tal condição, se é essa condição que me deixa viva todos os dias. As vontades diárias são de gozos e fortunas de amor e criação. Quero mãos a me percorrer, sentidos a me guiar e  um corpo para repousar. Há quem diga que o diabo é o pai dos desejos, se acaso verdadeiro isso for, sou o diabo de mim, de minhas vontades, do meu amor. Sinto cócegas constantes e arrepios salivantes em meu cantar. Sinto a vulva a salpicar elásticos macios e divinos do ser. E que vergonha haverei de ter se instintivamente somos carne e confusão, vontades e coração? Vergonha eu teria se preciso fosse conter toda essa gritaria que acanho na nudez, calar todo sentido que em mim elevo a ti. Felizes mais seríamos se cada um fizesse de suas vergonhas mais contidas, dois corpos alargados e ludibriados ficarem vivos e mortos, em lâminas viscosas de posições variadas.


Por: Ana Paula Morais


incoerência

Com caneta e coração,
gritou o insulto ao meu portão:
"Viva à festa, à multidão"!
Retornei em tom manso,
sem cores ou cordão:
"Viva às dores, à direção"!
E sem lógica ou descanso,
vi saltear cavalos no breu
adormecidos por um Romeu,
que sem Julieta
largou a festa,
e voltou prostrado à Deus,
"Estarei eu sentindo a vida
ou latejando em mim a ferida?"
Em silêncio, chorou o coração.

Por: Ana Paula Morais

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Repeat

Diagnóstico para pensar:


 O quê?
O "q"?
Uquê?
.

Por Ana Paula Morais




Engano meu

Obrigatoriamente servi o chá gelado por volta das  16:30 do sabádo. Limpei a mobília como de costume e organizei os porta-retratos virados para a porta. Pensei em encher a caneca, mas teria assunto demais para pensar até esvaziá-la. Então pensei no que poderia pensar por onze minutos, e resolvi por fim ao pensamento antes de passar o momento. Elenquei três situações novas e fui molhando os lábios e enxugando-os com a língua. Quanto estava a ponto de multiplicar o pensamento vezes mil, coloquei a caneca cinza no chão e deitei no chão com as pernas em cima do sofá. Respirei e resolvi: "Por hoje é só"! E nesse momento atraí a traição. Ela estava ali o tempo toda, sedenta como um imã. Cravou seus dentes no pensamento, o fez ardiloso, inquieto e insano. Com mais dois dedos do chá, não teria conquistado esse momento. Sorri envergonhada e conclui que: "é mais fácil pensar o pensamento do que tentar enganá-lo".

Por: Ana Paula Morais



segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Gozo em leito

Quando pus o vestido percebi que era melhor tirá-lo. Às vezes mesmo como a sedução que a roupa propõe, mostrar-se nua, inteira, intacta pode ser excitante ao sexo. É como se meu corpo bastasse existir e repousar meus olhos sobre ti  para sentir os arrepios surgirem à pele, já em constante excitação. Não quis mais esperar um só minuto. Parti ao teu encontro com o sexo na mão esperando sua história, seus contos, seus ouvidos me percorrendo. E foi como estar sendo tocada por um humano que admira uma rosa. Aquela delicadeza me consumia a cada toque. Quis te devorar e esperar que me desfolhasse ao mesmo tempo com a maldade. Meu corpo já não estava recatado, estava afogado em prazer e líquido. Quase em frenesi, gritei e agonizei espasmos entorpecentes... Agora deitada, encontro-me esvairada de um sonho, molhada em pecado, em vida, em meu leito...



Por Ana Paula Morais, ao meu amado...


sábado, 13 de agosto de 2011

sementes, sem mente.

Com algumas conchas fiz um colar. Ele parecia sem nexo ou beleza externa, mas fiquei contemplando-o enquanto não fechava seu encaixe. Pensei nas coisas que perdemos ou na importância que não damos ao que não nos atrai sexualmente ou fisicamente. E percebi que essas perdas aparentemente infantis nos tornam fortes como qualquer outro que percebeu tal situação. Não é preciso saber fechar o colar e sim entender a importância que você deu a ele. Catei as conchas. Fechei o círculo. Por hoje perdi os estímulos.

Por Ana Paula Morais


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Trecho em filme

"O homem que tem uma lenda em vida é conduzido por sua lenda. Começa com ingenuidade, inocência e termina com embaraços de todo tipo. E para suprir o poder divino que lhe falta... livra-se dos embaraços por meio desesperados..."
Do filme Camille Claudel. 

sábado, 23 de julho de 2011

Monologando

Parei por uns instantes e encolhi os pés. Aquele frio que pensei não chegar as mãos, desceu ao calcanhar. Tentei me concentrar na minha mente, no que ela me questionava. Mas o próprio fato de tentar já borbulhava várias outras possibilidades de ocupar a mente com um possível não-pensar. Se é que é possível. Ao tempo que encolhia os pés, debruçava o pescoço sobre a cabeceira. Quis aproveitar o frio. Entreguei-me à melancolia extrema que só ele sabe afundar seus seguidores. Pensei em um café, mas se eu me distraisse por um instante perderia o gozo da tristeza. Sim, da tristeza. Porque toda melancolia carrega tristeza, mas nem toda tristeza carrega melancolia. A melancolia é um sentimento dócil e duradouro que arrasta discípulos, que os domina e tornam devotos. Mas não é que ela machuque. Pelo contrário, ela traz delírios e inspirações que nem mesmo o amor conseguiria alcançar exímia homenagem. Rápido! Papel e lápis. Preciso registrar esse engasgo. Não, não. É melhor deitar e engolir a saliva.

Por Ana Paula Morais


quarta-feira, 13 de julho de 2011

Que tudo se f...

– que tudo se foda,
disse ela,
         e se fodeu toda.
Paulo Leminski